MATeus aleluia
MATERIAL DE ESTÍmULO À
PARTILHA E À PRODUÇÃO DE
NOVOS QUESTIONAmENTOS
Elaboração: Tenille Bezerra
Revisão: Fabiana Marques
Design e diagramação: Tiago Ribeiro
Apresentação
Tendo em vista estimular processos de ensino-aprendizagem, trocas de conhecimento e partilhas de modo geral, desdobramos aqui algumas sugestões do livro “O Afrobarroco” como forma de apontar caminhos, questionamentos, e, com eles, outros horizontes de pensamento em torno de aspectos fundamentais que cercam as nossas dinâmicas, sociais, históricas e culturais.
Mateus Aleluia afirma que cada um de nós, criaturas e seres viventes, traz impressões, aspectos únicos a serem revelados em torno da experiência do viver. Se o mundo é a soma das muitas perspectivas que o compõem, formar uma ideia sobre o mundo pressupõe, portanto, a multiplicidade de pontos de vista. Não existe verdade absoluta, mas uma soma de impressões que uma vez reunidas, ponderadas, nos auxiliam, enquanto corpo comum, coletivo, a caminhar com mais consciência do Todo que nos produz.
Identificado como um mestre, guardião de sabedorias ancestrais, Mateus Aleluia não cansa de afirmar o seu papel de aprendiz. Só aprende aquele que reconhece não saber, ou como diz o ensinamento atribuído a Sócrates: “Só sei que nada sei”. Reconhecer o infinito de desconhecimento é o primeiro passo em busca da sabedoria, uma busca que não nos permite estarmos fechados a definições estáveis, fixas, mas ao contrário, nos ajuda a compreender o aprendizado como uma dança ao sabor do vento das transformações, visto que o mundo muda e nós mudamos, partes que somos de tudo o que existe. Nesse baile da vida a escuta talvez seja a ferramenta mais preciosa. Ouvir, abrir-se, observar, entregar-se, e então, de onde menos se espera, lá está a fagulha da sabedoria.
Diante disto o Afrobarroco apresenta-se também como um método de questionamento e partilha. Surgido em 2004 em formato de palestra musical, ele vem sendo desenvolvido ao longo dos anos, tendo como eixo central a aplicação da arte e do conhecimento na criação de um ambiente favorável ao debate. Este guia se insere nesse percurso. Esperamos que ele possa contribuir de algum modo com a criação de novas perguntas, estimulando o desejo inesgotável de saber – energia-motriz da vida em seu contínuo processo de evolução – luz, que uma vez lançada sobre as consciências, é capaz de iluminar o caminho de toda a humanidade.
Cordialmente,
Equipe Afrobarroco
1 -
DE NÓS PARA NÓS
Desconstruir a rigidez dos ambientes de ensino favorece a fluidez na troca das ideias. Nesse sentido, deve-se buscar uma disposição do espaço que favoreça a proximidade, a troca de olhares, o entendimento e o respeito entre os corpos, condição para que surja a cumplicidade necessária a um processo de se compreende como coletivo. No processo de um debate em torno de determinado tema, todas as contribuições são importantes. As diferenças, quando articuladas, permitem a criação de um horizonte heterogêneo e complexo, como a vida. Não é necessário simplificar, todos temos disposição para o questionamento, de modo intuitivo, todos trazemos tentativas de respostas às questões mais fundamentais da existência.
Recuperando as ideias da pedagoga Vanda Machado¹, referência importante na criação de métodos de ensino em torno das matrizes afro-brasileiras, Mateus inicia as suas palestras com a história mítica de Maúra, tal como contada por Vanda.
Conta-se que no princípio havia uma única verdade no mundo. Entre o Orun e o Aiyê havia um espelho. Daí é que tudo que se mostrava no Orun materializava-se no Aiyê. Ou seja, tudo que estava no mundo espiritual refletia exatamente no mundo material. Ninguém tinha a menor dúvida sobre os acontecimentos como verdades absolutas. Todo cuidado era pouco para não quebrar o espelho da verdade. O espelho ficava bem perto do Orun e bem perto do Aiyê.
Naquele tempo, vivia no Aiyê uma jovem muito trabalhadora que se chamava Mahura. A jovem trabalhava dia e noite ajudando sua mãe a pilar inhames. Um dia, inadvertidamente, perdendo o controle do movimento ritmado da mão do pilão, tocou forte no espelho que se espatifou pelo mundo. Assustada, Mahura saiu desesperada para se desculpar com Olorum. Qual não foi a sua surpresa quando o encontrou tranquilamente deitado à sombra do Iroko. Depois de ouvir suas desculpas com toda a atenção, declarou que, dado aquele acontecimento, daquele dia em diante não existiria mais uma única verdade e concluiu: “De hoje em diante, quem encontrar um pedacinho de espelho em qualquer parte do mundo, estará encontrando apenas uma parte da verdade porque o espelho reproduz apenas a imagem do lugar onde ele se encontra².”
Glossário:
Orun: Mundo espiritual
Aiyê: Mundo natural
Iroko: Árvore considerada sagrada para os iorubanos. No Brasil foi substituída por gameleira branca.
Uma vez estabelecida a autonomia e a importância de todos os seres — portadores de um pedacinho do espelho da verdade de Olorum — nos abrimos com compreensão e respeito às contribuições de todos os presentes, a fim de vislumbrar uma verdade um pouco maior do que a nossa existência individual nos permite.
Proposta de diálogo:
Contação da história de Mahura e debate sobre as impressões em torno da ideia de uma verdade única.
2 -
DE ONDE VIEMOS?
Em suas palestras musicais, Mateus Aleluia costuma trazer uma imagem muito interessante sobre o processo de formação da vida humana, que ele chama “O Grande Concurso Cósmico”, do qual todos nós saímos vencedores. De maneira descontraída, ele brinca com a corrida dos espermatozoides em direção ao óvulo para o momento decisivo da fecundação. Dos milhares de “concorrentes”, nós somos resultado daquele que venceu. Venceu porque conseguiu chegar entre os primeiros, na grande corrida, e venceu porque foi escolhido pelo óvulo. A descontração com que ele aborda o processo de formação da vida revela um outro aspecto fundamental do estímulo ao diálogo: a convocação da coragem de cada indivíduo.
Todos nós, ao chegarmos nessa dimensão da existência, somos resultado de uma vitória, de uma conquista, do êxito de uma operação complexa e delicada onde estavam postas centenas de milhares de possibilidades distintas.
Em tom de “brincadeira séria”, Mateus Aleluia nos lembra: já nascemos vencedores e vencedoras.
Investir os interlocutores de coragem é um passo determinante no estímulo à livre expressão do pensamento. Coragem e liberdade: atributos fundamentais na tarefa de abrir caminhos a especulações de natureza mais filosóficas, que visam compreender tanto a nossa trajetória até aqui — Passado — como a nossa possibilidade de cooperação com a vida em seu processo contínuo de criação — Futuro.
Proposta de diálogo:
Afinal, de onde viemos?
Estimular o debate em torno de distintas concepções de origem do mundo oriundas dos muitos povos, etnias que compõem o povo brasileiro. Trazer dados sobre as etnias sobre das quais se vai falar.
Exemplos:
Povos indígenas: Tupinambá, Yanomami, Maxakali, Guaranis…
Povos africanos: Fon, Ewe, Iorubá, Bakongo…
Sugestão de faixa sonora:
Podcast Canto dos Recuados – Afrobarroco em Palestra Musical
Episódio 1 – No início era o som
Disponível no Canal da Sanzala Cultural no Youtube
Sugestão de leitura:
Meu destino é ser onça, de Alberto Mussa
Recriação de mito de criação do mundo Tupinambá por Alberto Mussa
Sugestão de audiovisual:
Programa Mojubá | Episódio 1 – Origens
Apresentação do mito de criação do mundo Iorubá
Disponível online.
3 -
A CIRCULARIDADE DO
CONHECIMENTO:
O MUNDO É UM SÓ
Inspirados pelo pensamento da circularidade e da convergência inerentes às cosmovisões dos povos tradicionais da América e da África, sugerimos a todas as pessoas em posição de mediadoras da produção de conhecimento a perspectiva da interdisciplinaridade e da relação.
Relacionar diferentes áreas do conhecimento nos auxilia a ter uma perspectiva mais ampla em torno de um mesmo fato ou dado histórico, tendo em vista que as dinâmicas humanas e naturais se dão sempre em relação.
Recomendamos a leitura do terceiro capítulo do livro O Afrobarroco e o desenvolvimento de questionamentos interdisciplinares sobre a história dos povos que constituem a base da formação do povo brasileiro.
Propostas de diálogo:
Abordar a história do desenvolvimento da ciência nos muitos reinos africanos e a vinda dos mestres de saberes para o atual território do Brasil. Utilizar a referência do Bastão de Ishango e de Imhotep para abordar a antiguidade do conhecimento africano, e de que modo isso veio se desenvolver nas Américas a partir da colonização e da diáspora africana forçada.
Abordar a domesticação dos alimentos pelos povos indígenas das Américas. Apresentar a existência da floresta amazônica como um ecossistema resultante da interação complexa entre forças da natureza, seres humanos e outras espécies de animais e vegetais.
Propor a reflexão em torno dos povos europeus como não sendo uma estrutura monolítica, mas uma composição dinâmica de povos cujas disputas se estendem do Oriente ao Ocidente. A presença dos mouros no território europeu.
Sugestão de faixa sonora:
Podcast Canto dos Recuados – Afrobarroco em Palestra Musical
Episódio 2 – Confraria dos Recuados
Disponível no Canal da Sanzala Cultural no Youtube
Sugestão de audiovisual:
Vozes da Floresta, com Ailton Krenak
Disponível online.
Este material foi desenvolvido como proposta de apoio à mediação pedagógica e está vinculado ao livro O Afrobarroco, de autoria de Mateus Aleluia. Não deve ser comercializado nem utilizado de forma independente da obra à qual está vinculado.
É permitida sua reprodução, compartilhamento e adaptação, desde que sejam atribuídos os devidos créditos.
Caderno pedagógico
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Versão digital do livro
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- Para maior compreensão do trabalho fundamental da professora Vanda Machado, ler a obra: Irê Ayo e o Espelho da Verdade – Uma Epistemologia Afro-Brasileira.
- História mítica adaptada por Vanda Machado para formação de educadoras e educadores da Rede Municipal de Educação em Salvador.