Foto: Paola Alfamor
OGUM TÁ
AUTOR: MATEUS ALELUIA

Ogum pa
Ogum pá ê
Ogum pá ê
Iemanjá
Koroaê!


AMOR CINZA
AUTOR: MATEUS ALELUIA

Na linha do horizonte
Tem um fundo cinza
Pra lá dessa linha
Eu me lanço e vou

Não aceito quando dizem
Que o fim é cinza
Se eu vejo o cinza
Como um início em cor

Quando tudo finda
Dizem: virou cinza.
Equívoco. pois cinza cura
É poesia, e, eu sou:

Um traje cinza
Lembra fidalguia
Quarta-feira cinza
É dia de louvor

Vamos celebrar
O amor há de renascer das cinzas
Vamos festejar
O cinza com amor

Gota de orvalho
Prateada é cinza
Massa encefálica
E cinza, amor

A purificação
Também se faz com cinza
Fênix renasceu das cinzas com honor

Só quero dengo
Quando o dia é cinza
Leio poesia
E cantarolo só

Dedilho a viola,
E sonho colorido.
Me vejo no amante
Que o cinza desnudou

Vamos celebrar…


A LENTE DO HOMEM
AUTOR: MANU LAFER

Eu vejo o céu de baixo
Até sem telescópio
É que o céu sou eu
Porque o céu é um ser
Eu leio a mão de cima
Até com microscópio
É que a mão é um ser

E se a lente do homem
Vê Deus , onde a lente
De Deus vê o homem
Saber é a imagem da fé
Que do outro se crê
E se do núcleo da célula
A íris espelha o destino
O dilema: ou a morte,
Ou o bem e o belo e o dom

Eu vejo o céu de baixo
Até sem telescópio
É que o céu sou eu
Porque o céu é um ser
Eu leio a mão de cima
É que a mão é Deus
Porque a mão é um ser

E se ao amor é a fé
Que do prisma do afeto
Onde o ventre é o teto
Que o tato tocou
E porque há sinfonia
Há também harmonia
Há também melodia
E o dia e o ia e o a que criou


QUEM GUIOU A CEGA
AUTOR: MATEUS ALELUIA

Parece conto avô
Que faz a gente rir- sorrir.
Mas vai virar uma cega
Quem guiou a cega

Fato hilariante
Se passou em Salvador
Conto esdrúxulo
Que causou grande sensação
Fala de negro
Avantajado e sedutor,
Amado, amante
Foi seduzido em tentação

Lasciva dama
Ela era só provocação
Provocou tanto
Que negão virou vulcão
Rendido a frente –(a) vançou por trás
Sem dizer não
Pego no flagra
Sizo na mão e com razão- e gritou
Rábula doutor (Cosme de Farias)
Fui eu o violado
Rábula doutor meu Deus
Gostei de ser amado


KOUMBA TAM
VERSÃO: MATEUS ALELUIA (PARA POESIA DE LÉOPOLD SEDAR SENGHOR A PABLO PICASSO)

Verde palma vela a febre dos cabelos,
Acobreia a curva fronte
As pálpebras quebradas, dupla face
As fontes seladas
Esse fino crescente, esse lábio mais negro
E quase pesado
E o sorriso da mulher cúmplice
As patenas das faces, o desenho do queixo
Cantam o mudo acorde
Rosto de máscara serrada ao efêmero.
Sem olhos, sem matéria
Perfeita cabeça de bronze com sua pátina do tempo
Sem vestígios de pinturas, nem de rubor, nem rugas
Nem lágrimas, nem beijos
O rosto tal qual Deus te criou antes mesmo
da memória das idades
Lembranças da aurora, do mudo
Não te abras
Pra receber no colo
Meu olhar que te afaga
Adoro-te, oh Beleza,
Com meu olho monocórdio!
Dorme Koumba Tam
Ela dorme e repousa seu rosto na candura da areia


PALAVRA QUE REZA (PALAVRA DE IMBONDEIRO)
AUTOR: MATEUS ALELUIA

Uma palavra
Início de uma reza
Palavra o vento leva
Mas fica sempre a intenção
Um beijo ardente
Beijo que nunca foi dado
Sentimentos fulminados
Como um cercar de folhas
No calor do sol de verão

Vovó me disse:
Não seja descuidado
Criança na calçada
Traz sempre muita confusão

Dance um semba
Ou um samba merengado
Ponha afoxé no xaxado
E na Balabina ponha um semba tropical

O imbondeiro
Resiste á incoerência
Por mais que lhe bajulem
Ele nunca se deixará trepar

Sapotizeiro
Que nos dá um doce fruto
Se sente altivo e impoluto
Pois a cor da pele
Do seu fruto é a cor da África


LAMENTO ÀS ÁGUAS / NA BEIRA DO MAR
AUTOR: MATEUS ALELUIA

Eh! Gni NBo NBoia
Kaniré Oyá Ba
Na beira do mar
Chamarei por Iemanjá
Olhai mãe santa
Meu canto de dor
Feito em seu louvor
Iemanjá

Iemanjá Eru Boa-ó
Iemanjá Eru
Minha dor

Na beira do mar
Chamarei por Iemanjá
Eh! Gni NBO NBoia
Kaniré Iemanjá

Odé , oxossi
Ogum, ajanshu
Iemanjá Eru Boa-ó
Iemanjá Eru Boa-ó

Eh! Gni NBo NBoia
Kaniré Oyá Ba
Na beira do mar
Chamarei por Iemanjá


DESPRECONCEITUOSAMENTE

AUTOR: MATEUS ALELUIA

Uma voz rouca
Um violão tão lento, um amor
Um peito acabrunhado, não
Um peito apaixonado, sim
É um passo manso lento
É um passo lento manso, do amor
É um passo manso lento
É um passo lento manso, do amor

Magoado, não
Bem-vindo, sim
Desesperado, não
Querido, sim
Acabrunhado, não
Apaixonado, sim
Por que não?
Despreconceituosamente
Eu vou vivendo a minha vida
Não me importa a cor da pele
Não me importa a cor da ida
Não me importa a cor da volta
É bonita porque estou
Por favor não feche a porta
Me aceite como eu sou
Eu sou filho da poeira
Sinto o pó em minha volta
Se você me fecha a porta
Sei que o amor ampara-me
Abraçando-me
Sublimando-me
Envolvendo-me, amor
Querendo-me bem

Adorando-me
Abraçando-me
Sublimando-me
Adorando-me, amor
Querendo-me bem
Uma voz rouca


CORDEIRO DE NANÃ
AUTOR: MATEUS ALELUIA E DADINHO

Salúba Nanã Buruuqê!
Eu fui chamado de cordeiro
Mas, eu não sou cordeiro não
Preferi ficar calado
Que falar e levar um não
O meu silêncio
é uma singela oração
Minha santa
Meu canto
Vibram as forças
Que sustenta o meu viver
O meu cantar
É um apelo que eu faço a Nanã

Sou de Nanã euá- euá, euá, ê

O que peço no momento
É silêncio e atenção
Quero contar um sofrimento
Que eu passei sem razão
O meu lamento se criou na escravidão…
Que forçado passei.

Eu chorei.
Eu sofri as duras dores da humilhação
Mas, ganhei porque trazia
Nanã no coração

Sou Nanã euá euá euá ê


HOMEM! O ANIMAL QUE FALA
AUTOR: MATEUS ALELUIA

Depois do grande Big Bang, surgimos!
E até hoje me pergunto
Quem fomos, quem somos, quem seremos?
A classificação é homem!
O animal que fala:
Fala verdade ou mentira- fala!
Ele é homem
Fala de amor ou fala d’ódio -fala!
Ele é homem
Como néscio ou como sábio fala!
Ele é homem
Como plebeu ou como nobre- fala!
(Ele é homem)
Ele fala, ele é homem! Ele fala!
Ele é homem
Pitecantropos- seremos
Sinantropos- seremos
Africantropos -seremos
Homem de Neandertal- quimera
Homem sapiens -deveras
Antropologicamente
Existe a linha fria mongol,
Antropologicamente,
Existe a linha morna da raça branca,
Antropologicamente,
Existe a linha quente- da raça negra
Vem do Chade- Da raça negra,
Vem o homem
Vem o homem

Eras e mais eras
Tantas eras se passaram
Paleolítico, Neolítico
Eras e mais eras se foram
E, depois de tantas idas e vindas no tempo,
Eu nasci em Cachoeira,
E, perguntei a Cachoeira:
Por que tanta decepção?
Cachoeira me disse:
Pergunte ao homem!
Cachoeira! E tanta desilusão,
Tanta intolerância
Por quê, Cachoeira? – Coisa do homem:
E porque tanta violência, Cachoeira?
Isto é do homem
Também Cachoeira me disse:
O homem que eu falo é você
Mergulhe bem dentro de si!
Se encontre e pergunte porquê- ah!
Serei um genoma que não genomou.
Ou a pedra d’ alquimia -que não se lapidou
Pedra filosofal, pedra da vida:
Morre o homem vil- para que o nobre homem
nobre possa surgir;
E, quando ele vier
Que seja pragmático como é Mandela:
Que traga poesia e independência como
Léopold Sédar Senghor;
Que tenha um sonho- como sonhou
Luther King;
Que seja um grande herói como foi Zumbi !

Cachoeira
Foi de Luanda que entendi
Sua realidade
Olhem pra mim! Sou de Cachoeira
Penso, falo, canto e sou sua liberdade

Huumm! Quando chego na Pitanga,
Certeza tenho que em casa eu já cheguei,
À tardinha vou passear no campo da manga
E , Lembro do Caquende,
em cuja as águas eu me banhei,
Da Faceira – tororó eu vejo a pedra da baleia
E o santuário de Oxum,
Mãe Aziri Tobossi,
Subindo a levada, vejo o ilê de Gaiaku,
Esse é o Big Bang-Cachoeira

Cachoeira
Foi de Luanda que entendi
Sua ancestralidade
Olhem pra mim! Sou de Cachoeira
Penso, falo, canto e sou sua liberdade


LIBERDADE
AUTOR: MATEUS ALELUIA

Sou eu , sou eu , sou eu , Liberdade
Sou eu , sou eu , sou eu, Realidade
Sou também fraternidade
Por um mudo de igualdade
Semeando pelos campos o amor

Serei Pablo Neruda
Serei Ernesto Che Guevara
Serei um Luther King ou Gandhi
Serei Guarani ou Tupi
Serei Violeta Parra
Serei o poeta Ho Chi Minh
Serei Nelson Mandela ou Lennon
Serei Abraham Lincoln ou Zumbi
Sou , sou eu , sou eu Liberdade

Foto: Paola Alfamor
Foto: Tenille Bezerra
Foto: Tenille Bezerra
Foto: Vinícius Xavier

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